sábado, 7 de março de 2009

Capítulo 10: A surpresa



A surpresa


Eu só não conseguia entender porque às vezes me sentia tão solitária. Tentava preencher o vazio com muito trabalho, mas quando eu menos esperava, a sensação de solidão estava ali outra vez.
Fui á Vila fazer compras e, como cheguei domingo pela manhã, resolvi ir direto para a escola dominical. Estava acontecendo uma manhã de glória e já havia começado a mensagem. No meio da pregação, o pregador (que eu nunca havia visto antes) pediu para que eu fosse até a frente e disse:

-Deus conhece a carência de teu coração, o teu esposo está a caminho, tu já o conheces, ele é da tua terra e aqui será pedida a tua mão.

Fiz o rancho e voltei para o campo com aquelas palavras guardadas no coração. Depois de dois meses retornei à vila e fiquei sabendo que alguém havia feito uma denuncia contra mim na Polícia Federal. Eu estava sendo acusada de biopirataria e tráfico de drogas, não estava entendendo nada, soube de um abaixo assinado para me expulsarem da região. Um missionário católico estava por trás de tudo isso e foi até o barco para me dizer que meus dias ali estavam contados, disse-me que sabia que eu era uma voluntária e que estava só. Mandou-me contar os dias.
Fui á Polícia Federal prestar esclarecimentos e apresentar toda a minha documentação eclesiástica e documento do barco. Fui liberada sem problemas porque as denúncias eram levianas e infundadas. Mas o clima de tensão e ameaça continuava no ar.
Telefonei para minha mãe e contei tudo que estava acontecendo, inclusive da necessidade de receber a visita de alguém do Pará, que pudesse me levar uma canoa para que eu colocasse um motor e pudesse atender melhor a região e para deixar claro para todos que eu era missionária de fato e que não estava sozinha.
Minha mãe ficou incumbida de fazer contatos e, quem sabe, conseguir alguém para uma viagem rápida à região.
Retornei ao campo e continuei trabalhando normalmente com a Vanessa junto aos índios da região, fazíamos viagens a remo que demoravam dias, dormíamos na beira do rio, cozinhávamos banana ou macaxeira para comer e remávamos o dia todo. Os trabalhos evangelísticos eram realizados durante o dia e à noite fazíamos cultos.
No final de uma dessas viagens, no dia do meu aniversário, chegamos em casa e percebemos que a porta estava arrombada, havia uma bolsa de viagem do lado de fora, um par de botas e um chapéu, entramos com cautela e vimos uma rede atada e alguém dormindo, o frio era intenso e estávamos congelando. A pessoa estava totalmente coberta. Vanessa se aproximou para acordá-lo e eu fiquei segurando um pedaço de pau para o caso de ter que me defender ou defendê-la. Ela bateu na rede e acordou o homem.
Era Dulcival Guedes de Sousa, o doador do Coração de Jesus.

Depois do susto inicial, ele me contou que a minha mãe, depois de inúmeros telefonemas, lembrou-se dele e resolveu telefonar para contar-lhe acerca da situação que estávamos vivendo e solicitar algum tipo de ajuda. Ele orou ao Senhor e após a confirmação e a providência do dinheiro para as passagens, partiu para a fronteira ciente de todos os problemas e disposto a ajudar no que fosse preciso. Sugeri, então, que ele me ajudasse tomando conta do Coração de Jesus porque eu havia recebido uma ameaça de um grupo indígena, dizendo que a embarcação seria incendiada e eu também temia que algum tipo de material ‘estranho’ fosse colocado à bordo.
O irmão Dulcival aceitou imediatamente e nós fomos, de canoa, em uma viagem de dois dias, deixá-lo na Vila, no Coração de Jesus.
Na realidade eu não me preocupei em lhe perguntar se ele possuía meios para se manter a bordo, e ele nada me falou sobre o assunto, sendo assim, regressei no dia seguinte.
Após três meses de trabalho, ao descermos o rio novamente, encontramos o irmão Dulcival ali, firme em sua missão de se relacionar com os índios que desciam para a vila e ganhar-lhes a confiança, de fazer amigos, de manter o barco limpo e arrumado e de vigiá-lo cuidadosamente. Eu observei, porém, que ele estava muito abatido e vários quilos mais magro, então, ele me disse que sua única alimentação nesses meses era peixe com farinha...Mas não se queixou, nem reclamou, nem pediu nada. Perguntei se ele iria continuar nos ajudando e ele disse que sim, sem nenhuma dúvida. Fiquei admirada e comovida com a sua disposição e com o seu amor para com o serviço do mestre.
Deixamos a vila no dia seguinte e ele ficou no barco, com uma sacola de rancho que certamente não daria nem para quinze dias. Avisei-o que faria uma viagem difícil e perigosa no Shandless e ele me disse que, todos os dias, em todos os momentos, ele ficaria orando por mim. Foi a primeira vez que vi um brilho especial em seus olhos.
A viagem no Shandless

Essa viagem foi difícil e cansativa. A Vanessa ficou na casa pastoral para que o trabalho não parasse e eu fui com um mateiro muito experiente e uma outra jovem para alcançar com o evangelho todos os moradores do rio. A viagem durou dois meses: dormíamos na beira do rio, arrodeados por jacarés, cobras venenosas e onças, comíamos só o que pescávamos ou caçávamos, e passávamos todo o dia remando, empurrando a canoa ou caminhando, levando toda a bagagem nas costas. Uma vez escapamos por milagre de uma enorme onça pintada e em outra ocasião um jacaré veio buscar um pedaço de carne embaixo da minha rede.

Visitamos casa por casa e levamos o evangelho a cada pessoa. Os resultados foram maravilhosos.
Retornei da viagem muito cansada e oito quilos mais magra, sentindo, outra vez, os sintomas da hepatite. Após descansar um pouco e tratar dos pés que estavam em carne e viva, desci para encontrar Vanessa na vila, porque me informaram que ela havia descido por sentir-se doente.
Um inseto havia posto larvas em seu ouvido e ela não estava suportando a dor de ter essa região tão sensível do corpo sendo sugada pelas larvas em crescimento. Eu a encontrei a bordo do Coração de Jesus, em meio a muito sofrimento. A “micro cirurgia” foi realizada no próprio barco por um missionário chamado Robson, que conhecia muito bem esse tipo de problema por trabalhar a oito anos na região. Um jovem admirável e incansável no trabalho do Senhor. Nós o conhecemos na Aldeia Nova Aliança em um batismo de índios Kashinauás, realizado por ele. Recebemos uma visita dele um mês após o batismo, ele pediu para conversar comigo em particular e me disse que, após um período de oração, e da confirmação da parte do Senhor, havia decidido pedir a mão da Vanessa em casamento. O pedido foi uma surpresa tanto para mim quanto para ela, que, para minha maior surpresa, o aceitou imediatamente.
Eu realizei a cerimônia do noivado no dia seguinte. O prato principal foi um jabuti guisado com banana e a bebida, chá. Mas a alegria do casal e a plenitude desse amor faziam com que tudo fosse único e especial.
Após a recuperação da Vanessa, eles subiram até Santa Rosa para o casamento, uma cerimônia simples, talvez muito longe de tudo que ela havia sonhado para sua vida, mas eu nunca vi uma noiva tão feliz e decidida quanto ela. Não pude ir ao casamento, mas fiquei orando por ela.

O maior presente

Na terceira vez que eu desci até a cidade, seis meses depois da chegada do irmão Dulcival, desci refletindo sobre o caráter desse homem, que sentimento em seu coração o tornava tão resignado ao sofrimento? O que o mantinha naquele lugar sem alimentação, sem conforto e sem perspectivas?
O encontrei no barco sem poder andar devido à ferrada de um inseto venenoso, não havia nada na dispensa além de um pouco de café. Naquela tarde, enquanto o missionário José Moreno, um peruano que estava alojado no Coração de Jesus, preparava as bananas que eu havia trazido para comermos, conversamos longamente, ele estava relembrando a reação de algumas pessoas contrárias à doação do barco, as calúnias e o abandono que havia sofrido até por parte de muitos de seus amigos, e o quanto ele estava feliz, porque, se não fosse a doação do barco, ele não estaria ali, agora, sendo útil ao trabalho do Senhor. Ele disse:
-Kelem, eu não me importo em ser o menor, mas eu quero servir, servir de coração, ajudar, ser útil. O que me importa é que Deus está me vendo e a recompensa, eu espero do meu Senhor. Hoje, eu não possuo nada, mas estou feliz como nunca estive quando possuía tudo.
Enquanto eu o ouvia falar. As lembranças das vezes em que Deus falou comigo acerca do meu futuro esposo começaram a brotar em minha mente... As alusões ao sofrimento, as cicatrizes que tal homem traria em seu coração...Seria da minha terra...Senhor, seria o Dulcival o meu marido?
Enquanto eu estava submersa nessas lembranças, ele sentou-se ao meu lado e disse:
-Kelem, eu não tenho nada para lhe oferecer, mas quero lhe dizer que a amo, que aprendi a amá-la aqui a cada dia que passava, a cada oração que fazia por você, a cada pensamento que lhe dedicava...Você pode ter certeza de uma coisa, terás ao teu lado um companheiro com quem você poderá contar todos os dias de sua vida e que te amará com todas as forças do coração. Você aceita se casar comigo?
E pediria a minha mão aqui...
Pensei rápido. Ele possuía todas as características que eu poderia sonhar em um marido, mas eu sentia medo porque não sentia que o amava com a mesma intensidade. Resolvi ser cautelosa até ter certeza.
-Dulcival, eu não sei, estou muito confusa, eu não o amo ainda como você merece e precisa ser amado e tenho medo de fazê-lo sofrer. Não imaginei que você possuísse um sentimento tão forte no coração...Acho que...Acho que...O melhor que você pode fazer é partir...Eu não posso me casar sem ter certeza em relação aos meus sentimentos e não posso mantê-lo aqui para sofrer, seria crueldade de minha parte. Por favor, me entenda... E não insista.
-Eu entendo, não se preocupe. Não vou mais tocar no assunto.
Depois dessa conversa, eu resolvi sair para caminhar um pouco e pensar acerca de minha decisão e de minha vida. Será que eu havia feito a coisa certa? Se havia, porque sentia esse vazio tão grande no coração, porque sentia essa dor quando pensava em sua partida?
Em meio a essas reflexões, nem percebi quando alguém tocou no meu ombro e, ao olhar para trás, vi o presbítero Ozias, um grande homem de Deus e ele me disse, com voz firme e decidida:
-Missionária Kelem, este homem, o irmão Dulcival, é o seu esposo, Deus me mostrou há alguns minutos, enquanto eu orava em minha casa, e ele manda te dizer que você não se preocupe porque Deus proverá tudo. Ah...E você já o ama, embora ainda não o saiba.
A escada de madeira que tínhamos que descer para chegar ao barco tinha aproximadamente duzentos degraus, ao pisar no primeiro degrau, eu disse: Meu Deus e meu Pai, piso neste primeiro degrau sem a completa consciência de que tenho este amor dentro de mim e não me casarei sem o sentir intensamente. Creio, porém, que podes fazê-lo brotar enquanto desço esta escada, de modo que quando pise o último degrau tenha a certeza da sinceridade e da grandeza do amor que sinto, sem nenhuma sombra de dúvida, então eu me casarei com ele.
Enquanto descia os degraus, comecei a sentir um aperto no coração, uma dor como se algo de muito especial estivesse sendo separado de mim, uma sensação de vazio e de solidão, tive a certeza, naquele momento, que jamais poderia ser feliz longe do Dulcival. Eu descobri, descendo aquelas escadas que o amava e minha vida não teria o menor sentido longe dele. E essa certeza veio de Deus.
Quando eu entrei no barco vi o Dulcival arrumando suas roupas em uma bolsa de viagem, não pude me conter: olhei bem nos olhos dele e disse:
-Eu gostaria de lhe pedir que ficasse.
-Por que?
-Porque a minha resposta para sua pergunta é sim, eu aceito me casar com você, eu também o amo, o amo muito e quero ser sua esposa.
Aquele primeiro abraço de noivos selou nosso destino. Ali estavam o meu coração e o coração do Dulcival, abençoados pelo coração de Jesus.

Viemos a Belém para nos casar, confiando que o nosso Pai providenciaria tudo o que fosse necessário, não tínhamos nem um centavo, mas nosso coração transbordava de fé e de esperança. Eu disse ao meu noivo que eu sonhava com uma aliança de ouro branco, amarelo e vermelho e que gostaria muito que esse sonho se realizasse, eu não poderia aceitar que tivéssemos que abrir mão de um desejo por falta de recursos. Nosso Deus é um Deus que realiza sonhos, até os impossíveis...Fomos a uma tarde de louvor no bairro da marambaia, na casa da irmã Lúcia, que eu conheci nesse mesmo dia e, após a ministração da palavra de Deus, ela me chamou e disse: Não me pergunte porque, mas Deus falou de maneira muito forte ao meu coração para que eu lhe desse um presente, é seu. Ela colocou um jóia na minha mão, era uma aliança de ouro branco, amarelo e vermelho...Ela não sabia de nada, mas Deus conhece o nosso coração. A festa de casamento foi linda e além das expectativas.
Após o casamento retornamos ao campo missionário para darmos continuidade ao trabalho. Construímos o 1º Templo Central indígena da região bem ao lado da casa pastoral e realizamos uma grande festa de inauguração, com a presença em massa, dos índios dos Rios Purus e Shandless. Foi uma vitória tremenda.

Depois disso, Deus nos ordenou que voltássemos á Belém, como ainda resistimos para tomar a decisão de viajar, o barco começou a apresentar uma série de problemas mecânicos e muitos vazamentos, entendemos que tudo aquilo era a mão de Deus nos apressando para a viagem. Empossamos o missionário Fábio Correia no campo e partimos para uma viagem de seis meses até Belém.
Deus colocou um projeto em nossos corações, um centro de treinamento em missões aqui no estado do Pará, um treinamento que incluísse teologia, missiologia, psicologia e matérias práticas como suinocultura, piscicultura, avicultura, horticultura, enfermagem, construção civil e uma série de outras disciplinas que eu atestei serem estritamente necessárias para que está em um campo missionário transcultural
E Deus continuou falando através de sonhos, de profecias, de visões e de várias maneiras e prometeu mover os corações nobres para tornar tudo possível.
No momento em que concluo esse livro, após um ano de severas lutas e provações, Deus nos deu o terreno para a implantação da escola e agora, diante desse novo desafio, nós:
“Levantamos os nossos olhos e vemos os campos que já branquejam para a ceifa”
e...
“Colocamos a mão no arado”
porque...
“O Senhor da Seara está conosco”


Post-Scriptum

Deus escolhe quem Ele quer para o seu serviço. Podemos não ser o ideal na visão de algumas pessoas, mas DEUS É O SENHOR DA SEARA e cabe a Ele, a escolha de seus ceifeiros. Ele faz do impossível o possível e abre portas até no vento para que seus propósitos sejam realizados. Certamente Ele tem um plano em sua vida, confie nele, coloque em ação a sua fé e, se for preciso for, ele fará até com que os grandes se curvem diante de ti. Seja sempre obediente à voz do Senhor, mesmo quando você não compreende. O que Deus encomenda Ele paga. Ele é o Dono de todos os recursos e nunca a obra de Deus deixou de ser realizada por falta deles, o que às vezes nos falta é o conhecimento de como usar a chave que abre todas essas portas, e essa chave é a FÉ. Tuas realizações serão do tamanho de tua fé.
O Senhor está ansioso para estabelecer o seu reino de amor e paz em outras centenas de tribos não alcançadas pelo evangelho, onde agora só habita a dor, o desespero, a morte e a crueldade...

Qual é a sua parte? O que você pode fazer?

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